quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Winterspell, cidade das fadas

Capítulo 2 - Uma nova escolha

Estrela abrira os olhos com os raios de sol a iluminar o seu quarto pelas frestas da janela. Aos poucos as lembranças da noite passada voltavam à sua mente. O baile, o príncipe, o velho, ela fora escolhida. Após o Príncipe Augustus terminar a frase que mudaria a sua vida, Estrela espiou por cima dos ombros rapidamente para verificar se aquele senhor que tanto a assustou ainda a encarava no topo da escada. Ele não estava mais lá. Agora de manhã refletia se a misteriosa aparição não passara de uma visão. Seus olhos lhe pregando uma peça, guiados pelo sentimento de culpa que pairava em seu inconsciente naquele momento, pela desobediência aos pais.

Após o pronunciamento real o Príncipe fora a seu encontro, envolvera suas mãos na dele em um gesto muito meigo e carinhoso, a olhara nos olhos com aquela profundidade que lhe era peculiar e lhe dissera:

- Estrela, estaria mentindo se lhe dissesse aqui e agora que estou apaixonado. Mas, dentre todas as senhoritas que conversei e dancei durante esta noite, você foi aquela que me provocou um frio de excitação no estômago. Acho que é o que chamam...borboletas? – Ele enrubesceu na mesma hora e olhou para os pés, ainda envolvendo minhas mãos na dele.

Estrela sorrira com a simplicidade daquelas palavras, também de bochechas coradas. Era fácil esquecer no meio de tudo aquilo que afinal de contas o Príncipe não passava de um jovem assim como ela. Permanecera em silêncio, aguardando que Augustus terminasse de dizer o que viera dizer, sentira que ele precisava de tempo. Ele respirou mais uma vez, como quem toma coragem,

- Sei que esta não é a forma mais romântica de se começar uma história, mas é a única que me concedem. Sei também que você pode não querer passar por isso junto comigo. Estou aqui para que você olhe nos meus olhos agora e me diga se está disposta a me dar uma chance. Ao contrário de você eu não tenho escolha, mas gostaria de passar por isso ao lado de alguém que realmente esteja me dando uma chance e não dando uma chance ao trono.

Ele terminou suas palavras com a expressão meio dura. Soltou as mãos de Estrela devagar e aguardou olhando no seus olhos, como se esperasse que ela o recusasse naquele mesmo instante. Era incrível como ele não sabia do efeito que causava nas pessoas. Como alguém como ele poderia ser inseguro? Até o momento ele se mostrara gentil, agradável, tão comprometido com seus deveres como futuro rei, responsável, e por todas as forças do Universo, ele era tão lindo!

- Vossa Alteza, quando entrei no salão não esperava mais dessa noite do que um dia de liberdade, para me divertir e conhecer pessoas novas. Confesso que te conhecer e ser a escolhida definitivamente não estava nos meus planos.

Ele relaxou um pouco a expressão do rosto, satisfeito por sua sinceridade.

- Mas acho que raramente as coisas funcionam como planejado. - continuei –  Pelo menos para mim. Eu também estaria mentindo se dissesse que estou apaixonada, mas mentiria mais ainda se negasse que conhecer você hoje mudou algo em mim.

Estrela pegou novamente as suas mãos. Ao redor dos dois as pessoas se dispersaram e foram curtir o final da festa, que se aproximava. Nenhuma donzela parecia muito desapontada por não ter sido a escolhida. As pessoas de Solaris não se abatiam facilmente.

- Eu quero conhecê-lo melhor. Não por qualquer título que futuramente possa me conceder, mas porque eu realmente senti uma conexão entre nós. O que eu deveria dizer, na verdade, é que quero te conhecer apesar do título. – nós dois rimos.

- Apesar? – ele perguntou, surpreso.

- Sim, apesar. Fui criada nas terras Sul, lá não existe mais realeza, nunca me imaginei como rainha e não faço ideia de como governar. Isso simplesmente não fazia parte do meu mundo até me mudar para cá. Até esse baile, mais especificamente.

- Obrigada por sua sinceridade, Estrela. – ele sorriu aliviado, fez uma reverência e beijou-lhe a mão. – preciso ir dar fim ao baile, mas antes quero pessoalmente lhe colocar em uma carruagem e garantir que chegue segura em casa. Converse com seus pais. Amanhã, outra carruagem real irá te buscar para que tome café comigo no palácio.

Ao ouvir a menção de seus pais Estrela olhou distraidamente para os convidados remanescentes a sua volta. Não queria que o príncipe visse a preocupação em seus olhos. Os dois se encaminharam para os portões do palácio, seguidos pelos olhares dos funcionários reais, cheios de curiosidade. Esquecera-se completamente de perguntar a Augustus sobre o senhor de barba comprida e olhar estranho.

Estrela sentou-se na cama e esfregou os olhos. Lembrar-se daquela conversa fez seu estômago revirar de uma maneira engraçada. E não tinha nada a ver com fome. Seus pais ainda não tinham descoberto a sua fuga na noite passada. Tinha que confessar seus crimes antes que a carruagem real chegasse, ou seria tudo muito pior. Arrumara-se em cinco minutos. Descera as escadas aos saltos, os encontrando sentados à mesa do café. Sentia que seria uma conversa difícil.

Antes mesmo que pudessem falar qualquer coisa Estrela olhou-os nos olhos e disse:

- Pai, mãe, precisamos conversar.

Estrela então contara toda a sua aventura durante a noite, tomando o cuidado de deixar de fora o velho estranho no topo da escada, não os queria preocupar sem motivo. Seus pais, ao longo de toda a conversa, demonstraram diversas reações: surpresa, perplexidade, raiva, medo, resignação. O pai de Estrela fora o primeiro a falar.

- Estrela, não acredito que você nos enganou e fugiu no meio da noite, você imagina o que seria de nós se tivesse acontecido algo com você? – ele tinha um olhar cansado.

Ele falara isso em um tom de voz baixo e triste. Seu pai raramente levantava a voz para qualquer coisa, principalmente em relação a ela. Naquele momento, parecera dez vezes pior do que se ele tivesse gritado. O seu tom baixo não deixara que ela se distraísse do quanto egoísta tinha sido na noite passada. Mas Estrela estava decidida a viver aquela história e precisava se manter firme, por pior que estivesse se sentindo naquele momento.

- Pai, eu realmente fui egoísta, mas estava cansada de ficar trancada em casa e ter sempre que me esconder por causa de minha aparência. – Estrela prendeu o ar surpresa consigo mesma por ser capaz de confessar estes sentimentos que há tanto tempo guardara para si. - Cansada de ter medo das pessoas fazerem perguntas sobre mim e por isso evitar sair, ter amigos. Eu sei que você e minha mãe têm todos os motivos para quererem me proteger, mas logo terei que fazer a minha escolha e seria muito bom que eu tivesse a opção de me tornar mortal como a mamãe, não acham?

Eles se entreolharam. A mãe de Estrela que estivera calada até aquele momento, apenas os olhando com um olhar de concentração, de que tentava resolver um problema complexo, disse para o marido:

- Ela está certa, se continuarmos a evitar que ela viva só haverá um caminho a escolher. Caminho esse que a obrigará a se esconder pelo resto da vida, e que, depois de ontem, não sei se será a melhor escolha para Estrela.

Ela respirara fundo. Saíra de perto da janela e sentara-se a mesa onde Estrela estava com seu pai.

- Mas você deve sempre se lembrar do risco que irá correr. Você não pode se dar o luxo de ter o coração partido como uma garota normal. Tente não se envolver demais, espere que ele se envolva primeiro, e se não isso ocorrer, abandone essa história, tudo bem?

O pai de Estrela apenas olhara para a esposa e abanara a cabeça em concordância, se sentido impotente diante de toda aquela história. Se por um lado sentia medo de que algo desse errado e enfim o pior acontecesse, por outro, entendia que as escolhas não estavam exatamente favoráveis à filha. Não podia culpá-la por querer um futuro diferente daquele a que estava destinada. Viver como uma fada, no anonimato, até o fim de seus dias.

O coração de Estrela pulsara forte de ansiedade. É claro que ela sabia dos riscos que iria correr, mas ver a mãe falar daquela forma, com tanto medo no olhar, um medo que jamais poderia sentir, naquela intensidade, a fez questionar-se sobre o que estaria fazendo.

Mas a verdade é que como uma fada Estrela jamais poderia ter uma vida normal. Seria para sempre a princesa enclausurada em sua própria torre. Como bem dissera a mãe, no fundo estava segura de que não aguentaria uma vida inteira se escondendo.

O seu aniversário de 16 anos se aproximava. Faltava menos de dois meses. Antes da noite passada Estrela pensara que sabia exatamente como a sua vida terminaria, mas agora diante da possibilidade de um destino diferente, a excitação liberava ondas por todo o seu corpo. Não poderia virar as costas para essa oportunidade. Era a sua única chance.


Bem nesse instante ouviram uma batida na porta. Seus pais lhe lançaram um último olhar carregado de avisos e Estrela marchou firme rumo a um novo caminho a ser trilhado. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Winterspell, cidade das fadas

Capítulo 1 - O início

Houve um tempo em que Winterspell não era somente neve, não era somente inverno. As árvores tinham folhas verdes e frutos. Passávamos tempos de calor e não só de frio. Vivo nesta cidade há 15 anos e nunca vi um céu azul. Neva regularmente e onde deveria ser verde, sempre está branco ou cinza.

É estranho pensar que há um século e meio atrás havia chuva, flores, verão, e tudo tenha se acabado por uma história de amor que terminou de forma trágica. Eu era tão obcecada pelas histórias de nosso passado que já havia lido cada livro existente em nossa biblioteca sobre o assunto. Já havia conversado com todos os anciões da cidade, aqueles com mais de cento e cinquenta anos, e eles eram pelo menos uns vinte! Fui assim, montando como se fosse um quebra cabeça, encaixando as peças que faltavam aqui e ali, até decorar tudo que havia para se saber.

Os sábios anciões contam que há cento e cinquenta anos atrás havia um príncipe chamado Augustus. Ele estava prestes a assumir o reino, pois seu pai, o rei Octávio, estava muito doente. Contudo, pelas regras do nosso povo, regras essas que ainda subsistem, Augustus só poderia reinar após tomar a mão de uma donzela como esposa, e assim, fizesse dela sua rainha.

O tempo estava correndo e o rei Octávio encontrava-se cada vez mais fraco. O príncipe resolveu promover um baile no castelo para todas as donzelas entre 15 e 18 anos, a fim de, quem sabe, conhecer aquela que seria sua futura rainha.

No mesmo dia em que os cavalheiros da guarda real passavam pela cidade, de casa em casa, comunicando às famílias de que haveria o baile, chegaram na cidade forasteiros vindos das terras Sul, que ficavam do outro lado da margem do rio Sina, o rio que ainda hoje demarca uma de nossas fronteiras. Era uma família composta por um homem de uns quarenta anos, sua esposa de uns trinta e poucos e a filha de quinze anos de idade. Ainda hoje se comenta da beleza etérea que possuía a jovem. Alguns de nossos anciões que estiveram presentes à época, apenas crianças, dizem que sobre ela pairava um brilho prateado como a luz do luar.

Seu nome era Estrela, tinha longos cabelos loiros, prateados, que iam até a cintura, a pele pálida e olhos azuis cintilantes. Sua mãe também era muito bela e possuía cabelos tão loiros quanto o de Estrela, mas não havia brilho nenhum à sua volta ou qualquer coisa além da normalidade.

Logo que se instalaram em um pequeno casebre abandonado, onde costumava viver um velhinho, próximo à estrada do rei, foram informados do baile por um dos guardas reais. Imagino que tenha acontecido algo mais ou menos assim:

- Senhor, o Príncipe Augustus, herdeiro do rei Óctavio o destemido, governante das terras do Norte, defensor da cidade Solaris, comunica a todos os seus súditos e moradores neste reino, que toda e qualquer donzela entre a idade de 15 e 18 anos compareça ao baile real a ser promovido esta noite. Uma donzela será escolhida pelo príncipe para que governe ao seu lado e se torne rainha de Solaris, até o fim de seus dias. É essa a vontade do rei. – disse o guarda real, na soleira da porta, enquanto encarava o pai de Estrela e aguardava por sua resposta.

O pai de Estrela subitamente ficara pálido e por um momento não soubera o que falar. Quando retomou a voz dissera em um tom seco:

- Não há nenhuma donzela nestas condições aqui.- E fechara a porta antes que o guarda dissesse algo mais. Estrela observara o pai se afastar, com um olhar vazio repousado no lugar em que momentos antes estivera a marca real, sobre a malha que cobria o peito do cavalheiro.

Na cidade de Solaris a notícia de um baile fora recebida com extremo entusiasmo pelo povo. Era impensável que qualquer família dispensasse a chance de se ver ligado à família real por laços de sangue. Era uma oportunidade única, e por isso o guarda prontamente se deslocou ao próximo lar, sem sequer verificar a informação dada pelo pai de Estrela.

Mas os pais da jovem escondiam um segredo sobre a filha. Segredo esse que era motivo suficiente para querê-la longe das atenções do reino. Estrela era uma fada.

A mãe de Estrela, um dia, também fora uma fada. Mas é que as fadas, ao chegarem à idade de dezesseis anos, a idade em que as fadas atingiam seu completo desenvolvimento, possuíam três caminhos a serem seguidos. Se até essa idade se encontrassem puras de coração, ou seja, sem terem conhecimento das paixões humanas, viveriam o resto de suas vidas como fadas e conservariam seus poderes.

Se, porém, se apaixonassem por um mortal, deixariam de serem fadas para se transformarem em mulheres comuns. Foi assim que aconteceu com a mãe de Estrela. Ela se apaixonara poucos meses antes de completar dezesseis anos. Acontece que o sangue de uma fada é algo muito místico e forte, e mesmo fadas que se tornam humanas tem o seu sangue conservado na primeira filha. Por isso, mesmo sendo filha de mortais, toda primeira filha de uma fada, nasce também uma fada.

O terceiro destino é, contudo, o mais cruel e triste. Se, ao chegar à idade de dezesseis anos, a fada passar por algum acontecimento traumático em sua vida, ela é tomada pela escuridão. O coração das fadas é muito frágil e não consegue suportar por muito tempo, ou de forma intensa, sentimentos negativos como dor, extrema tristeza, depressão etc. Por isso, uma fada que é acometida por algum desses sentimentos imediatamente é tomada pela escuridão. A luz que existe em todas as fadas se apaga totalmente e ela se torna parte do lado sombrio. Tornam-se o que chamamos hoje de bruxas.

Estrela, porém, era jovem e estava cansada da superproteção dos pais, de ter que se esconder de todos e se preservar, a fim de evitar qualquer trauma em sua vida, porque assim estava evitando também de viver. Não suportava não poder ser ela mesma e não estava disposta a perder o primeiro baile de que já ouvira falar. Era uma oportunidade única. Estava disposta a correr o risco uma noite, se isso significasse ser uma jovem normal, ver pessoas da sua idade e se divertir, para variar.

Assim, naquela noite, esperou que os pais dormissem, pegou um vestido que pertencia à mãe, que ela trouxera da casa de sua família quando se casara com seu pai. Possuía vários vestidos dignos de qualquer princesa, pois a mãe era descendente de uma família muito nobre. Saiu escondido para a área central da cidade, à uns cinco minutos de sua casa. Lá o príncipe mandara que carruagens estivessem disponíveis durante toda a noite para que levassem as donzelas ao castelo.

Ao chegar ao palácio Estrela foi imediatamente notada por todos. Estava incrivelmente bela e seu brilho ainda mais intenso. Era, sem dúvidas, a jovem mais bela que ali se encontrava. Foi anunciada no salão central, onde todos os convidados pareciam se concentrar, e assim que desceu as escadas deu de cara com o Príncipe Augustus dançado aos giros com uma das muitas jovens ali presentes. Ele era o homem mais bonito que Estrela já conhecera. Envolta dos dois dançarinos abrira-se uma grande roda, onde todas as donzelas esperavam ansiosas a sua vez de rodopiar pelo salão.

Na metade de um giro o Príncipe a notou, ali parada, meio sem saber o que fazer ou como se portar. Ele continuou a encará-la, até que a música acabasse. Com a última nota, ele agradeceu a garota com quem dançara, em uma breve reverência, e encaminhou-se diretamente em sua direção.

- Permita-me senhorita - beijando-lhe as mãos - concede-me a honra desta dança?

Naquele instante, em uma fração de segundos, um turbilhão de pensamentos se passaram pela cabeça de Estrela. Conhecer o Príncipe definitivamente não estava em seus planos. Suas intenções eram apenas de se divertir, ver pessoas de sua idade. Se sentira infinitamente mais culpada do que já estava. Era como se dançar com o príncipe fosse além da desobediência. Significava mais. E ela sabia o que, mas assim que os lábios dele tocaram a sua mão, tão suavemente, nada mais importava. Foi como se de repente um branco apagasse tudo.

- A honra é toda minha, Alteza. - disse, fazendo uma reverência. Ele segurou a sua mão e a puxou para a pista de dança formada pela roda de donzelas, que neste momento a olhavam com inveja.

- Qual o seu nome? Você não parece daqui de Solaris. Melhor, me diga também o nome de sua família. - perguntou o Príncipe. Ele falava em um tom animado, apesar de soar as vezes um pouco forçado.

- Vossa Alteza está certo, eu não sou daqui. Meu nome é Estrela Dallari. Eu e minha família nos mudamos hoje para cá. O meu pai acabara de herdar um casebre na beira da estrada do rei. Viemos das terras Sul.

- Você é neta de Victor Dallari? - Ele deu um giro pelo salão. Estrela surpreendeu-se que o Princípe tenha ouvido falar de seu avô. Sentira algo a mais em sua voz. Ele também estava surpreso. 

Estrela não chegou a conhecê-lo. O pouco que sabia fora contado da boca do pai. Isso porque o avô desaprovara seu casamento com a sua mãe por ela ser uma fada. Seu pai então fugira para se casar e nunca mais voltou. Até que no mês passado recebera uma carta, avisando da morte de Victor Dallari e de que ele lhe deixará a casa em que vivia em Solaris. A família então resolvera se mudar. Mas parecia-lhe impossível que o Príncipe soubesse dessa história. Afinal, as fadas viviam em segredo entre os humanos. 

Houve uma época em que o mundo pertencia somente aos seres místicos como as fadas, mas com o surgimento da espécie humana pouco a pouco tudo foi sendo tomado e estes seres foram ficando sem lugar. Os humanos se sentiram ameaçados pelo seu poder ou cobiçavam a sua beleza e começaram então a caçá-las em todos os cantos da terra. Para não serem exterminadas, as fadas tiveram que aprender a viver entre os humanos, no anonimato. 

Algumas fadas acabaram se apaixonando por humanos e tornando-se mortais. Muitas daquelas que não conseguiram viver anonimamente, foram perseguidas de tal forma, causando a elas um medo tão grande, que elas acabaram sendo tomadas pelo lado sombrio e se transforam nas primeiras bruxas da história.

Os humanos as queimaram em fogueiras e isso provocou um ódio tão grande, desequilibrando as forças místicas de tal forma, que este ódio tem passado de geração em geração à todas as bruxas que surgem. Por causa disso, muitos humanos enxergavam as fadas como ameaça, por estarem nelas o poder de serem tomadas pelo lado sombrio. Por este motivo, quase nenhuma família que descobrisse o segredo, aprovava a união de seus filhos com as fadas.

- Sim, sou a neta de Victor Dallari. Se me permite a pergunta vossa Alteza, como conheceu o meu avô? - Estrela estava com medo de ouvir a resposta. Caso o príncipe conhecesse a história de sua família, ele poderia deduzir o que ela era e ela poderia estar em grave perigo dentro do palácio.

- Seu avô por muitos anos ocupou a cadeira de conselheiro do rei, pai de meu pai, meu avô Augustus. Soube que teve um filho e que este filho fora lutar nas guerras da terra Sul. Este então é seu pai. - Ele disse, a girando duas vezes e puxando-a para si. Estrela percebera então que o tom de surpresa que havia notado tinha sido algo bom.

A música acabou antes que ela pudesse falar algo sobre o que acabara de ouvir. Ele sorriu e permaneceu segurando a mão de Estrela.

- Vamos ter que dançar mais uma música senhorita Dallari, se assim lhe agradar. Não sei o suficiente sobre você para deixá-la ir ainda.

- Me agrada muito, vossa Alteza. - Estrela sentia-se com o coração a mil dentro do peito. Queria estar com ele, gostara de segurar as suas mãos, macias, suaves e quentes. Mas não queria mais conversar sobre sua vida. Havia coisas que ele não poderia jamais saber. 

Era estranho, mas enquanto ele fizera aquelas perguntas sobre a sua família, os olhos do Príncipe a encaravam de tal maneira, como se estivesse enxergando além dos seus olhos. As suas mãos suavam frio sobre a dele e um arrepio subia pelas suas costas sempre que ele ajeitava o braço sobre a sua cintura.

- Já foi à algum baile antes? - Ele perguntou, e Estrela ficou feliz de o assunto caminhar para lados diferentes. Agora a música estava mais lenta e eles balançavam com tranquilidade pelo salão.

- Não, as cidades do Sul não possuem mais reis e castelos. Cada cidade agora é governada por um conselho de anciãos.

- É verdade, meu pai uma vez me disse isso. E o que você está achando? - parecia bobagem mas Estrela jurava ter percebido um pouco de ansiedade passar pelos olhos dele. Sem conseguir evitar, deu uma risada. 

- Até o momento, superando as expectativas. E o que vossa Alteza está achando? - ele também riu.

- Até o momento, superando as expectativas. - O Príncipe terminou a frase com um sorriso torto pendurado nos lábios.

- Vossa Alteza, você vai mesmo escolher a futura rainha hoje?

- Eu preciso escolher alguém hoje, mas não me casarei amanhã. Tenho um prazo de duas semanas para ter certeza de minha escolha. Em outras palavras, para me apaixonar. - Dessa vez o sorriso em seus lábios tremeu, ele pareceu inseguro.

Mais uma vez a música chegou ao fim. Dessa vez ele disse à Estrela que precisaria dançar com o resto das outras garotas. Eram ordens reais. Com uma piscadinha e um sorriso triste, de quem não quer se despedir, ele se afastou.

Estrela resolveu aproveitar o seu tempo no palácio e saiu para dar uma volta. A carruagem só a levaria de volta meia noite, após o pronunciamento do Príncipe de quem ele escolheria. Estrela deixou-se imaginar o que aconteceria se ao final daquela noite o Príncipe a escolhesse. Com toda certeza se meteria em uma grande encrenca com seus pais, por tê-los desobedecido. Mas também pensou se aquele não poderia ser o melhor destino que ela poderia ter. Se tornar mortal, viver um grande amor. Ser normal, apenas uma mulher comum. Com certeza seus pais ficariam aliviados com isso.

O salão principal, onde estava ocorrendo o baile era ovalado, com o teto tão alto que poderia caber a mais alta árvore e ainda assim esta não o alcançaria. Era todo decorado, assim como as paredes em todo palácio. Em uma espécie de segundo andar, em uma bancada, encontrava-se a rainha. O rei estava descansando. Estrela ouvira dizer que estava muito doente.

No alto da escada, por onde Estrela chegara ao salão, encontrava-se um homem, um senhor que parecia ter uns noventa anos de idade, com a barba tão longa que lhe caia pelo chão e formava pequenos caracóis a seus pés. Era encurvado, e segurava algo como se fosse um cajado, um longo cabo de madeira em que se apoiava, vestia uma longa capa preta que lhe cobria os pés. Não o havia notado até aquele momento, mas quando o olhou percebia que ele a encarava de uma forma que teve certeza. Ele sabia.

Estrela sentiu todo o corpo gelar, mas no mesmo momento ouviu as badaladas do sino avisando que era a hora do pronunciamento do Príncipe. Sentia-se tensa, mas deu as costas àquele senhor e encaminhou-se junto à pequena multidão de meninas que formavam um roda, novamente, ao redor do Príncipe. Estrela subitamente viu-se entre sentimentos conflitantes. De repente uma parte sua queria desesperadamente ser a escolhida. A outra, contudo, estava aflita com o que acabara de ver. 

No entanto, ao cruzar o olhar com o Príncipe Augustus, novamente foi como se uma nuvem branca invadisse a sua mente e uma sensação morna cobrisse seu corpo. Nada importava naquele momento, a não ser aquelas palavras. Ele a olhou, um olhar cheio de significados. Encheu o peito como se estivesse tomando coragem e disse. 

- Essa noite eu escolho para a minha futura rainha, Estrela Dallari.