Capítulo 1 - O início
Houve um tempo
em que Winterspell não era somente neve, não era somente inverno. As árvores
tinham folhas verdes e frutos. Passávamos tempos de calor e não só de frio.
Vivo nesta cidade há 15 anos e nunca vi um céu azul. Neva regularmente e onde
deveria ser verde, sempre está branco ou cinza.
É estranho
pensar que há um século e meio atrás havia chuva, flores, verão, e tudo tenha
se acabado por uma história de amor que terminou de forma trágica. Eu era tão
obcecada pelas histórias de nosso passado que já havia lido cada livro
existente em nossa biblioteca sobre o assunto. Já havia conversado com todos os
anciões da cidade, aqueles com mais de cento e cinquenta anos, e eles eram pelo menos uns vinte! Fui assim, montando como se fosse um quebra cabeça, encaixando as peças
que faltavam aqui e ali, até decorar tudo que havia para se saber.
Os sábios
anciões contam que há cento e cinquenta anos atrás havia um príncipe chamado
Augustus. Ele estava prestes a assumir o reino, pois seu pai, o rei Octávio,
estava muito doente. Contudo, pelas regras do nosso povo, regras essas que
ainda subsistem, Augustus só poderia reinar após tomar a mão de uma donzela
como esposa, e assim, fizesse dela sua rainha.
O tempo estava
correndo e o rei Octávio encontrava-se cada vez mais fraco. O príncipe resolveu
promover um baile no castelo para todas as donzelas entre 15 e 18 anos, a fim
de, quem sabe, conhecer aquela que seria sua futura rainha.
No mesmo dia em que os cavalheiros da guarda real passavam pela cidade, de casa em casa, comunicando às famílias de que haveria o baile, chegaram na cidade forasteiros vindos
das terras Sul, que ficavam do outro lado da margem do rio Sina, o rio que
ainda hoje demarca uma de nossas fronteiras. Era uma família composta por um
homem de uns quarenta anos, sua esposa de uns trinta e poucos e a filha de quinze anos de idade. Ainda hoje se comenta da beleza etérea
que possuía a jovem. Alguns de nossos anciões que estiveram presentes à época,
apenas crianças, dizem que sobre ela pairava um brilho prateado como a luz do
luar.
Seu nome era
Estrela, tinha longos cabelos loiros, prateados, que iam até a cintura, a pele
pálida e olhos azuis cintilantes. Sua mãe também era muito bela e possuía
cabelos tão loiros quanto o de Estrela, mas não havia brilho nenhum à sua
volta ou qualquer coisa além da normalidade.
Logo que se
instalaram em um pequeno casebre abandonado, onde costumava viver um velhinho, próximo à estrada do rei, foram
informados do baile por um dos guardas reais. Imagino que tenha acontecido algo
mais ou menos assim:
- Senhor, o
Príncipe Augustus, herdeiro do rei Óctavio o destemido, governante das terras
do Norte, defensor da cidade Solaris, comunica a todos os seus súditos e moradores
neste reino, que toda e qualquer donzela entre a idade de 15 e 18 anos
compareça ao baile real a ser promovido esta noite. Uma donzela será escolhida
pelo príncipe para que governe ao seu lado e se torne rainha de Solaris, até o
fim de seus dias. É essa a vontade do rei. – disse o guarda real, na soleira da
porta, enquanto encarava o pai de Estrela e aguardava por sua resposta.
O pai de
Estrela subitamente ficara pálido e por um momento não soubera o que falar. Quando
retomou a voz dissera em um tom seco:
- Não há
nenhuma donzela nestas condições aqui.- E fechara a porta antes que o guarda
dissesse algo mais. Estrela observara o pai se afastar, com um olhar vazio repousado no lugar em que momentos antes estivera a marca real, sobre a malha que cobria o peito do cavalheiro.
Na cidade de
Solaris a notícia de um baile fora recebida com extremo entusiasmo pelo povo. Era
impensável que qualquer família dispensasse a chance de se ver ligado à família
real por laços de sangue. Era uma oportunidade única, e por isso o guarda
prontamente se deslocou ao próximo lar, sem sequer verificar a informação dada
pelo pai de Estrela.
Mas os pais da jovem escondiam um segredo sobre a filha. Segredo esse que era motivo
suficiente para querê-la longe das atenções do reino. Estrela era uma fada.
A mãe de
Estrela, um dia, também fora uma fada. Mas é que as fadas, ao chegarem à idade
de dezesseis anos, a idade em que as fadas atingiam seu completo desenvolvimento, possuíam três caminhos a serem seguidos. Se até essa idade se
encontrassem puras de coração, ou seja, sem terem conhecimento das paixões
humanas, viveriam o resto de suas vidas como fadas e conservariam seus poderes.
Se, porém, se
apaixonassem por um mortal, deixariam de serem fadas para se transformarem em
mulheres comuns. Foi assim que aconteceu com a mãe de Estrela. Ela se
apaixonara poucos meses antes de completar dezesseis anos. Acontece que o sangue
de uma fada é algo muito místico e forte, e mesmo fadas que se tornam humanas tem o seu sangue conservado na primeira filha. Por isso, mesmo sendo filha de
mortais, toda primeira filha de uma fada, nasce também uma fada.
O terceiro
destino é, contudo, o mais cruel e triste. Se, ao chegar à idade de dezesseis anos, a
fada passar por algum acontecimento traumático em sua vida, ela é tomada pela
escuridão. O coração das fadas é muito frágil e não consegue suportar por muito
tempo, ou de forma intensa, sentimentos negativos como dor, extrema tristeza, depressão
etc. Por isso, uma fada que é acometida por algum desses sentimentos
imediatamente é tomada pela escuridão. A luz que existe em todas as fadas se
apaga totalmente e ela se torna parte do lado sombrio. Tornam-se o que chamamos
hoje de bruxas.
Estrela,
porém, era jovem e estava cansada da superproteção dos pais, de ter que se
esconder de todos e se preservar, a fim de evitar qualquer trauma em sua vida, porque assim estava evitando também de viver. Não suportava não poder
ser ela mesma e não estava disposta a perder o primeiro baile de que já ouvira falar. Era uma oportunidade única. Estava disposta a correr o risco uma noite, se isso significasse ser uma jovem normal, ver pessoas da sua idade e se divertir, para variar.
Assim, naquela
noite, esperou que os pais dormissem, pegou um vestido que pertencia à mãe, que ela trouxera da casa de sua família quando se casara com seu pai. Possuía vários
vestidos dignos de qualquer princesa, pois a mãe era descendente de uma família
muito nobre. Saiu escondido para a área central da cidade, à uns cinco minutos de sua casa. Lá o príncipe mandara
que carruagens estivessem disponíveis durante toda a noite para que levassem as
donzelas ao castelo.
Ao chegar ao
palácio Estrela foi imediatamente notada por todos. Estava incrivelmente bela e
seu brilho ainda mais intenso. Era, sem dúvidas, a jovem mais bela que ali se encontrava. Foi anunciada no salão central, onde todos os convidados pareciam se concentrar, e assim que desceu as escadas deu de cara com o Príncipe Augustus dançado aos giros com uma das muitas jovens ali presentes. Ele era o homem mais bonito que Estrela já conhecera. Envolta dos dois dançarinos abrira-se uma grande roda, onde todas as donzelas esperavam ansiosas a sua vez de rodopiar pelo salão.
Na metade de um giro o Príncipe a notou, ali parada, meio sem saber o que fazer ou como se portar. Ele continuou a encará-la, até que a música acabasse. Com a última nota, ele agradeceu a garota com quem dançara, em uma breve reverência, e encaminhou-se diretamente em sua direção.
- Permita-me senhorita - beijando-lhe as mãos - concede-me a honra desta dança?
Naquele instante, em uma fração de segundos, um turbilhão de pensamentos se passaram pela cabeça de Estrela. Conhecer o Príncipe definitivamente não estava em seus planos. Suas intenções eram apenas de se divertir, ver pessoas de sua idade. Se sentira infinitamente mais culpada do que já estava. Era como se dançar com o príncipe fosse além da desobediência. Significava mais. E ela sabia o que, mas assim que os lábios dele tocaram a sua mão, tão suavemente, nada mais importava. Foi como se de repente um branco apagasse tudo.
- A honra é toda minha, Alteza. - disse, fazendo uma reverência. Ele segurou a sua mão e a puxou para a pista de dança formada pela roda de donzelas, que neste momento a olhavam com inveja.
- Qual o seu nome? Você não parece daqui de Solaris. Melhor, me diga também o nome de sua família. - perguntou o Príncipe. Ele falava em um tom animado, apesar de soar as vezes um pouco forçado.
- Vossa Alteza está certo, eu não sou daqui. Meu nome é Estrela Dallari. Eu e minha família nos mudamos hoje para cá. O meu pai acabara de herdar um casebre na beira da estrada do rei. Viemos das terras Sul.
- Você é neta de Victor Dallari? - Ele deu um giro pelo salão. Estrela surpreendeu-se que o Princípe tenha ouvido falar de seu avô. Sentira algo a mais em sua voz. Ele também estava surpreso.
Estrela não chegou a conhecê-lo. O pouco que sabia fora contado da boca do pai. Isso porque o avô desaprovara seu casamento com a sua mãe por ela ser uma fada. Seu pai então fugira para se casar e nunca mais voltou. Até que no mês passado recebera uma carta, avisando da morte de Victor Dallari e de que ele lhe deixará a casa em que vivia em Solaris. A família então resolvera se mudar. Mas parecia-lhe impossível que o Príncipe soubesse dessa história. Afinal, as fadas viviam em segredo entre os humanos.
Houve uma época em que o mundo pertencia somente aos seres místicos como as fadas, mas com o surgimento da espécie humana pouco a pouco tudo foi sendo tomado e estes seres foram ficando sem lugar. Os humanos se sentiram ameaçados pelo seu poder ou cobiçavam a sua beleza e começaram então a caçá-las em todos os cantos da terra. Para não serem exterminadas, as fadas tiveram que aprender a viver entre os humanos, no anonimato.
Algumas fadas acabaram se apaixonando por humanos e tornando-se mortais. Muitas daquelas que não conseguiram viver anonimamente, foram perseguidas de tal forma, causando a elas um medo tão grande, que elas acabaram sendo tomadas pelo lado sombrio e se transforam nas primeiras bruxas da história.
Os humanos as queimaram em fogueiras e isso provocou um ódio tão grande, desequilibrando as forças místicas de tal forma, que este ódio tem passado de geração em geração à todas as bruxas que surgem. Por causa disso, muitos humanos enxergavam as fadas como ameaça, por estarem nelas o poder de serem tomadas pelo lado sombrio. Por este motivo, quase nenhuma família que descobrisse o segredo, aprovava a união de seus filhos com as fadas.
- Sim, sou a neta de Victor Dallari. Se me permite a pergunta vossa Alteza, como conheceu o meu avô? - Estrela estava com medo de ouvir a resposta. Caso o príncipe conhecesse a história de sua família, ele poderia deduzir o que ela era e ela poderia estar em grave perigo dentro do palácio.
- Seu avô por muitos anos ocupou a cadeira de conselheiro do rei, pai de meu pai, meu avô Augustus. Soube que teve um filho e que este filho fora lutar nas guerras da terra Sul. Este então é seu pai. - Ele disse, a girando duas vezes e puxando-a para si. Estrela percebera então que o tom de surpresa que havia notado tinha sido algo bom.
A música acabou antes que ela pudesse falar algo sobre o que acabara de ouvir. Ele sorriu e permaneceu segurando a mão de Estrela.
- Vamos ter que dançar mais uma música senhorita Dallari, se assim lhe agradar. Não sei o suficiente sobre você para deixá-la ir ainda.
- Me agrada muito, vossa Alteza. - Estrela sentia-se com o coração a mil dentro do peito. Queria estar com ele, gostara de segurar as suas mãos, macias, suaves e quentes. Mas não queria mais conversar sobre sua vida. Havia coisas que ele não poderia jamais saber.
Era estranho, mas enquanto ele fizera aquelas perguntas sobre a sua família, os olhos do Príncipe a encaravam de tal maneira, como se estivesse enxergando além dos seus olhos. As suas mãos suavam frio sobre a dele e um arrepio subia pelas suas costas sempre que ele ajeitava o braço sobre a sua cintura.
- Já foi à algum baile antes? - Ele perguntou, e Estrela ficou feliz de o assunto caminhar para lados diferentes. Agora a música estava mais lenta e eles balançavam com tranquilidade pelo salão.
- Não, as cidades do Sul não possuem mais reis e castelos. Cada cidade agora é governada por um conselho de anciãos.
- É verdade, meu pai uma vez me disse isso. E o que você está achando? - parecia bobagem mas Estrela jurava ter percebido um pouco de ansiedade passar pelos olhos dele. Sem conseguir evitar, deu uma risada.
- Até o momento, superando as expectativas. E o que vossa Alteza está achando? - ele também riu.
- Até o momento, superando as expectativas. - O Príncipe terminou a frase com um sorriso torto pendurado nos lábios.
- Vossa Alteza, você vai mesmo escolher a futura rainha hoje?
- Eu preciso escolher alguém hoje, mas não me casarei amanhã. Tenho um prazo de duas semanas para ter certeza de minha escolha. Em outras palavras, para me apaixonar. - Dessa vez o sorriso em seus lábios tremeu, ele pareceu inseguro.
Mais uma vez a música chegou ao fim. Dessa vez ele disse à Estrela que precisaria dançar com o resto das outras garotas. Eram ordens reais. Com uma piscadinha e um sorriso triste, de quem não quer se despedir, ele se afastou.
Estrela resolveu aproveitar o seu tempo no palácio e saiu para dar uma volta. A carruagem só a levaria de volta meia noite, após o pronunciamento do Príncipe de quem ele escolheria. Estrela deixou-se imaginar o que aconteceria se ao final daquela noite o Príncipe a escolhesse. Com toda certeza se meteria em uma grande encrenca com seus pais, por tê-los desobedecido. Mas também pensou se aquele não poderia ser o melhor destino que ela poderia ter. Se tornar mortal, viver um grande amor. Ser normal, apenas uma mulher comum. Com certeza seus pais ficariam aliviados com isso.
O salão principal, onde estava ocorrendo o baile era ovalado, com o teto tão alto que poderia caber a mais alta árvore e ainda assim esta não o alcançaria. Era todo decorado, assim como as paredes em todo palácio. Em uma espécie de segundo andar, em uma bancada, encontrava-se a rainha. O rei estava descansando. Estrela ouvira dizer que estava muito doente.
No alto da escada, por onde Estrela chegara ao salão, encontrava-se um homem, um senhor que parecia ter uns noventa anos de idade, com a barba tão longa que lhe caia pelo chão e formava pequenos caracóis a seus pés. Era encurvado, e segurava algo como se fosse um cajado, um longo cabo de madeira em que se apoiava, vestia uma longa capa preta que lhe cobria os pés. Não o havia notado até aquele momento, mas quando o olhou percebia que ele a encarava de uma forma que teve certeza. Ele sabia.
Estrela sentiu todo o corpo gelar, mas no mesmo momento ouviu as badaladas do sino avisando que era a hora do pronunciamento do Príncipe. Sentia-se tensa, mas deu as costas àquele senhor e encaminhou-se junto à pequena multidão de meninas que formavam um roda, novamente, ao redor do Príncipe. Estrela subitamente viu-se entre sentimentos conflitantes. De repente uma parte sua queria desesperadamente ser a escolhida. A outra, contudo, estava aflita com o que acabara de ver.
No entanto, ao cruzar o olhar com o Príncipe Augustus, novamente foi como se uma nuvem branca invadisse a sua mente e uma sensação morna cobrisse seu corpo. Nada importava naquele momento, a não ser aquelas palavras. Ele a olhou, um olhar cheio de significados. Encheu o peito como se estivesse tomando coragem e disse.
- Essa noite eu escolho para a minha futura rainha, Estrela Dallari.
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