Capítulo 2 - Uma nova escolha
Estrela
abrira os olhos com os raios de sol a iluminar o seu quarto pelas frestas da
janela. Aos poucos as lembranças da noite passada voltavam à sua mente. O baile,
o príncipe, o velho, ela fora escolhida. Após o Príncipe Augustus terminar a
frase que mudaria a sua vida, Estrela espiou por cima dos ombros rapidamente para
verificar se aquele senhor que tanto a assustou ainda a encarava no topo da
escada. Ele não estava mais lá. Agora de manhã refletia se a misteriosa
aparição não passara de uma visão. Seus olhos lhe pregando uma peça, guiados
pelo sentimento de culpa que pairava em seu inconsciente naquele momento, pela
desobediência aos pais.
Após
o pronunciamento real o Príncipe fora a seu encontro, envolvera suas mãos na
dele em um gesto muito meigo e carinhoso, a olhara nos olhos com aquela
profundidade que lhe era peculiar e lhe dissera:
-
Estrela, estaria mentindo se lhe dissesse aqui e agora que estou apaixonado. Mas,
dentre todas as senhoritas que conversei e dancei durante esta noite, você foi
aquela que me provocou um frio de excitação no estômago. Acho que é o que
chamam...borboletas? – Ele enrubesceu na mesma hora e olhou para os pés, ainda
envolvendo minhas mãos na dele.
Estrela
sorrira com a simplicidade daquelas palavras, também de bochechas coradas. Era
fácil esquecer no meio de tudo aquilo que afinal de contas o Príncipe não
passava de um jovem assim como ela. Permanecera em silêncio, aguardando que
Augustus terminasse de dizer o que viera dizer, sentira que ele precisava de tempo. Ele respirou mais uma vez, como quem toma coragem,
-
Sei que esta não é a forma mais romântica de se começar uma história, mas é a
única que me concedem. Sei também que você pode não querer passar por isso
junto comigo. Estou aqui para que você olhe nos meus olhos agora e me diga se
está disposta a me dar uma chance. Ao contrário de você eu não tenho escolha,
mas gostaria de passar por isso ao lado de alguém que realmente esteja me dando
uma chance e não dando uma chance ao trono.
Ele
terminou suas palavras com a expressão meio dura. Soltou as mãos de Estrela
devagar e aguardou olhando no seus olhos, como se esperasse que ela o recusasse
naquele mesmo instante. Era incrível como ele não sabia do efeito que causava
nas pessoas. Como alguém como ele poderia ser inseguro? Até o momento ele se mostrara gentil, agradável, tão comprometido com seus deveres como futuro rei, responsável, e por todas as forças do Universo, ele era tão lindo!
-
Vossa Alteza, quando entrei no salão não esperava mais dessa noite do que um
dia de liberdade, para me divertir e conhecer pessoas novas. Confesso que te
conhecer e ser a escolhida definitivamente não estava nos meus planos.
Ele
relaxou um pouco a expressão do rosto, satisfeito por sua sinceridade.
-
Mas acho que raramente as coisas funcionam como planejado. - continuei – Pelo menos para mim. Eu
também estaria mentindo se dissesse que estou apaixonada, mas mentiria mais
ainda se negasse que conhecer você hoje mudou algo em mim.
Estrela
pegou novamente as suas mãos. Ao redor dos dois as pessoas se dispersaram e foram
curtir o final da festa, que se aproximava. Nenhuma donzela parecia muito
desapontada por não ter sido a escolhida. As pessoas de Solaris não se abatiam
facilmente.
-
Eu quero conhecê-lo melhor. Não por qualquer título que futuramente possa me
conceder, mas porque eu realmente senti uma conexão entre nós. O que eu deveria
dizer, na verdade, é que quero te conhecer apesar do título. – nós dois rimos.
-
Apesar? – ele perguntou, surpreso.
-
Sim, apesar. Fui criada nas terras Sul, lá não existe mais realeza, nunca me
imaginei como rainha e não faço ideia de como governar. Isso simplesmente não
fazia parte do meu mundo até me mudar para cá. Até esse baile, mais
especificamente.
-
Obrigada por sua sinceridade, Estrela. – ele sorriu aliviado, fez uma
reverência e beijou-lhe a mão. – preciso ir dar fim ao baile, mas antes quero
pessoalmente lhe colocar em uma carruagem e garantir que chegue segura em casa.
Converse com seus pais. Amanhã, outra carruagem real irá te buscar para que tome
café comigo no palácio.
Ao
ouvir a menção de seus pais Estrela olhou distraidamente para os convidados
remanescentes a sua volta. Não queria que o príncipe visse a preocupação em
seus olhos. Os dois se encaminharam para os portões do palácio, seguidos pelos
olhares dos funcionários reais, cheios de curiosidade. Esquecera-se
completamente de perguntar a Augustus sobre o senhor de barba comprida e olhar
estranho.
Estrela
sentou-se na cama e esfregou os olhos. Lembrar-se daquela conversa fez seu
estômago revirar de uma maneira engraçada. E não tinha nada a ver com fome.
Seus pais ainda não tinham descoberto a sua fuga na noite passada. Tinha que
confessar seus crimes antes que a carruagem real chegasse, ou seria tudo muito pior. Arrumara-se em cinco
minutos. Descera as escadas aos saltos, os encontrando sentados à mesa do café.
Sentia que seria uma conversa difícil.
Antes
mesmo que pudessem falar qualquer coisa Estrela olhou-os nos olhos e disse:
-
Pai, mãe, precisamos conversar.
Estrela
então contara toda a sua aventura durante a noite, tomando o cuidado de deixar
de fora o velho estranho no topo da escada, não os queria preocupar sem motivo.
Seus pais, ao longo de toda a conversa, demonstraram diversas reações: surpresa,
perplexidade, raiva, medo, resignação. O pai de Estrela fora o primeiro a
falar.
-
Estrela, não acredito que você nos enganou e fugiu no meio da noite, você
imagina o que seria de nós se tivesse acontecido algo com você? – ele tinha um
olhar cansado.
Ele
falara isso em um tom de voz baixo e triste. Seu pai raramente levantava a voz
para qualquer coisa, principalmente em relação a ela. Naquele momento, parecera
dez vezes pior do que se ele tivesse gritado. O seu tom baixo não deixara que
ela se distraísse do quanto egoísta tinha sido na noite passada. Mas Estrela estava
decidida a viver aquela história e precisava se manter firme, por pior que estivesse se sentindo naquele momento.
-
Pai, eu realmente fui egoísta, mas estava cansada de ficar trancada em casa e
ter sempre que me esconder por causa de minha aparência. – Estrela prendeu o ar
surpresa consigo mesma por ser capaz de confessar estes sentimentos que há
tanto tempo guardara para si. - Cansada de ter medo das pessoas fazerem
perguntas sobre mim e por isso evitar sair, ter amigos. Eu sei que você e minha
mãe têm todos os motivos para quererem me proteger, mas logo terei que fazer a
minha escolha e seria muito bom que eu tivesse a opção de me tornar mortal como
a mamãe, não acham?
Eles
se entreolharam. A mãe de Estrela que estivera calada até aquele momento,
apenas os olhando com um olhar de concentração, de que tentava resolver um problema complexo, disse para o marido:
-
Ela está certa, se continuarmos a evitar que ela viva só haverá um caminho a
escolher. Caminho esse que a obrigará a se esconder pelo resto da vida, e que,
depois de ontem, não sei se será a melhor escolha para Estrela.
Ela
respirara fundo. Saíra de perto da janela e sentara-se a mesa onde Estrela
estava com seu pai.
-
Mas você deve sempre se lembrar do risco que irá correr. Você não pode
se dar o luxo de ter o coração partido como uma garota normal. Tente não se
envolver demais, espere que ele se envolva primeiro, e se não isso ocorrer,
abandone essa história, tudo bem?
O
pai de Estrela apenas olhara para a esposa e abanara a cabeça em concordância,
se sentido impotente diante de toda aquela história. Se por um lado sentia medo
de que algo desse errado e enfim o pior acontecesse, por outro, entendia que as
escolhas não estavam exatamente favoráveis à filha. Não podia culpá-la por
querer um futuro diferente daquele a que estava destinada. Viver como uma fada,
no anonimato, até o fim de seus dias.
O
coração de Estrela pulsara forte de ansiedade. É claro que ela sabia dos riscos
que iria correr, mas ver a mãe falar daquela forma, com tanto medo no olhar, um
medo que jamais poderia sentir, naquela intensidade, a fez questionar-se sobre
o que estaria fazendo.
Mas
a verdade é que como uma fada Estrela jamais poderia ter uma vida normal. Seria
para sempre a princesa enclausurada em sua própria torre. Como bem dissera a
mãe, no fundo estava segura de que não aguentaria uma vida inteira se escondendo.
O
seu aniversário de 16 anos se aproximava. Faltava menos de dois meses. Antes da
noite passada Estrela pensara que sabia exatamente como a sua vida terminaria,
mas agora diante da possibilidade de um destino diferente, a excitação liberava
ondas por todo o seu corpo. Não poderia virar as costas para essa oportunidade.
Era a sua única chance.
Bem
nesse instante ouviram uma batida na porta. Seus pais lhe lançaram um último
olhar carregado de avisos e Estrela marchou firme rumo a um novo caminho a ser
trilhado.
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